Publicação : 28/06/2017

AUTOMEDICAÇÃO E DESCARTE RACIONAL DE MEDICAMENTOS

O que é a Automedicação?
Automedicação é o ato de consumir medicamentos sem orientação de um profissional devidamente habilitado, seguindo a impulsos ou influências de pessoas que não dominam o assunto. Os sintomas de determinada enfermidade são percebidos pelo usuário e este decide comprar medicamentos sem antes realizar uma consulta com profissional capacitado da área da saúde.
Geralmente, a indicação vem de familiares ou amigos que já tiveram quadro clínico parecido e que desconhecem o fato de que cada organismo reage de forma diferente aos medicamentos. Ou seja, não é porque uma medicação teve efeitos positivos em alguém conhecido que trará benefícios à pessoa que apresenta um problema semelhante.
Dados da OMS (2010) mostram um percentual superior a 10% das internações hospitalares ocasionadas por reações ao mau uso de medicamento. No Brasil, 80 milhões de pessoas (35%) têm o hábito de se automedicar, segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas – Abifarma.
A automedicação vai desde uma atitude aparentemente inocente, como o uso de uma aspirina para dor de cabeça ou um antiespasmódico para cólicas menstruais, até a falta de bom senso em indicar para si próprio ou para os outros tratamentos à base de antibióticos ou antidepressivos.
A origem da palavra farmácia vem do grego pharmakón que, na Grécia Antiga, designava substância capaz de provocar transformações, para o bem e para o mal. Podia ser remédio ou veneno, dependendo da dose tomada.

“A diferença entre um remédio e um veneno está só na dosagem”.
(Paracelso – Médico e Físico do séc. XVI)

Em alguns países, com sistema de saúde pouco estruturado, a ida à farmácia representa a primeira opção procurada para resolver um problema de saúde e, a maior parte dos medicamentos consumidos pela população é vendida sem receita médica.
O hábito de tomar remédios isentos de receita médica ou sem tarja, também conhecidos como remédios de prateleira e indicados para tratar pequenos males do dia a dia por um curto espaço de tempo (3 dias), é muito comum devido ao fácil acesso e ao marketing significativo na mídia.
No Brasil, embora haja regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para a venda e propaganda de medicamentos que possam ser adquiridos sem prescrição médica, a orientação para aqueles que os utilizam é muito falha, até porque as pessoas preferem recorrer aos familiares e amigos em vez de tirar suas dúvidas com os farmacêuticos, que estão presentes em todas as farmácias e por período integral.

Algumas razões pelas quais as pessoas se automedicam:
A propaganda desenfreada e massiva de determinados medicamentos contrasta com as tímidas campanhas que tentam esclarecer os perigos da automedicação;
A dificuldade e o custo de se conseguir uma consulta médica, e a limitação do poder prescritivo, restrito a poucos profissionais de saúde;
O desespero e a angústia desencadeados por sintomas ou pela possibilidade de se adquirir uma doença;
Informações sobre medicamentos obtidos à boca pequena, na internet ou em outros meios de comunicação;
Falta de regulamentação e fiscalização daqueles que vendem e a falta de programas educativos sobre os efeitos, muitas vezes irreparáveis, da automedicação.
Problemas relacionados à automedicação:
Muitos medicamentos são vendidos sem prescrição médica, como os analgésicos, vitaminas, antiácidos, laxantes e descongestionantes nasais. Isso, porém, não significa que não façam mal à saúde. Eles podem agravar doenças, mascarar sintomas ou, até mesmo, ter efeitos colaterais como intoxicação, dependência química e reação alérgica.

Interação medicamentosa:
Essa situação ocorre quando a pessoa está utilizando um medicamento e decide usar outro por conta própria e ao mesmo tempo. No entanto, os componentes dos dois medicamentos podem reagir um com o outro, podendo ocorrer a perda do efeito, sua potencialização ou até mesmo toxicidade, agravando a situação ou acarretando um novo problema. Exemplos: uma mulher está tomando anticoncepcional e decide tomar, sem prescrição, um antibiótico (adquirido de uma amiga que realizou algum tratamento e sobraram alguns comprimidos), sem saber que alguns antibióticos (e não são poucos) diminuem o efeito de alguns anticoncepcionais;
Os medicamentos antiácidos (Eno, Estomazil, Sonrisal, Omeprazol, etc) podem interferir na metabolização e na eliminação de inúmeros medicamentos (por alterar o PH do estômago), diminuindo o efeito do medicamento e/ou causando toxicidade;
Alterar, por conta própria, as doses previamente estabelecidas por um profissional, ingerir medicamentos com leite, suco ou chás, também podem causar sérios problemas;
A mistura entre um anti-inflamatório e um descongestionante nasal pode provocar uma parada cardíaca;
O medicamento Fluconazol, muito utilizado por mulheres em casos de infecções fúngicas (principalmente candidíase), por inibir o citocromo P4503A4, aumenta os níveis séricos de inúmeros derivados de antibióticos e medicamentos controlados, aumentando seus efeitos tóxicos e podendo causar, inclusive, neurotoxicidade (dor de cabeça, alucinação, sedação, tonturas, convulsão e coma);
Se uma criança estiver usando antiespasmódico (contra cólica) e descongestionante nasal e fizer o uso de broncodilatador com nebulização, corre o risco de ter uma parada cardíaca, pois terá os batimentos do coração aumentados consideravelmente;

Intoxicação:
Os medicamentos são a principal causa de intoxicação no Brasil, segundo dados do Sinitox - Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, ficando à frente de produtos de limpeza, agrotóxicos e alimentos estragados. Os benzodiazepínicos, antigripais, antidepressivos e anti-inflamatórios são as classes de medicamentos que mais causam intoxicações em nosso país.
Exemplos: calmantes ou sedativos, conhecidos como barbitúricos, são substâncias perigosas porque a dose que começa a intoxicar está próxima da que produz os efeitos terapêuticos desejáveis. Com essas doses tóxicas, começam a surgir os sinais de falta de coordenação motora, estado de inconsciência, sono muito pesado e, por fim, aparece um estado de coma. A pessoa não responde a nada, a pressão do sangue fica mais baixa e a respiração é tão lenta que pode causar parada respiratória. Exemplos: fenobarbotal e tiopental.
Inibidores do apetite: as chamadas anfetaminas agem de forma ampla, afetando o comportamento do ser humano. Entre os efeitos tóxicos causados pelo uso abusivo está o surgimento de comportamentos diferentes do normal (a pessoa fica mais agressiva, irritada, acha que os outros estão tramando contra ela). Dependendo do excesso da dose e da sensibilidade individual, pode aparecer um verdadeiro estado de paranoia e até alucinações. Exemplos: Anfepra-mona, Femproporex e Mazindol.
Tranquilizantes ou ansiolíticos: do ponto de vista orgânico ou físico, essas drogas oferecem bastante segurança. São necessárias grandes doses para provocar efeitos mais graves. Entretanto, a situação muda de figura se, além de ter tomado o ansiolítico, foi ingerida bebida alcoólica. Nesses casos, a intoxicação torna-se séria, pois há grande diminuição da atividade do cérebro, o que pode levar ao estado de coma. Exemplos: Bromazepam, Alprazolam, Clonazepam e Diazepam.
Analgésicos e anti-inflamató-rios: podem causar diversos problemas, tais como, insuficiência renal, alterações na mucosa gástrica,  problemas hepáticos, úlcera, além de causar problemas no sistema nervoso central e periférico. Também interfere no processo inflamatório natural, prejudicando a recuperação e aumentando os riscos de novas lesões por repetição, como ocorre bastante no caso de atletas. Exemplos: Paracetamol, Ácido Acetilcilsalicílico, Nimesulida e Ibuprofeno.
Obs.1: O paracetamol é um dos medicamentos mais utilizados no Brasil, mas é bom ressaltar que a dose tóxica é apenas 3 vezes maior que a dose terapêutica máxima, ocasionando hepatotoxicidade grave e potencialmente fatal;
Obs.2: A dipirona é muito pouco usada na Europa e nos EUA, por isso, existem poucos estudos sobre seu grau de toxicidade renal.
Obs.3: a nimesulida nunca foi aprovada no Reino Unido e na Alemanha, e já foi retirada de circulação do Canadá, Estados Unidos, Japão, Espanha, Finlândia, Irlanda, Bélgica, Dinamarca, Holanda e Suécia. Devido aos seus efeitos colaterais diretos no fígado, é importante que seja evitado seu uso crônico e repetido.

Dependência química, tolerância e resistência ao medicamento:
O uso irracional de medicamentos pode causar dependência química, principalmente com medicamentos controlados, pois agem diretamente no sistema nervoso central. Tolerância é quando uma pessoa tem uma resposta medicamentosa reduzida, que ocorre quando o medicamento é usado repetidamente e o corpo se adapta a sua presença constante. Resistência se refere à capacidade dos microrganismos ou células cancerígenas de resistir aos efeitos de um medicamento que normalmente é eficaz contra eles.
Exemplo: o antibiótico que antes combatia a infecção agora não faz mais efeito, desta forma, o indivíduo terá que realizar um tratamento com algum medicamento mais potente (para bactérias resistentes) e, consequentemente, com maior custo e maior tempo de tratamento;

Aumento do erro nos diagnósticos das doenças:
O uso de medicamentos, se estendido por decisão própria, pode comprometer posteriormente o tratamento adequado de determinadas patologias, por mascarar os verdadeiros sintomas, provocando, ainda, o aumento do período do uso da medicação adequada.
Exemplo: com diagnóstico de apendicite aguda, o enfermo inicia com um quadro frusto (começo dos sintomas) e se automedica com antibióticos. Como consequência, a apendicite aguda em fase inicial, que se resolveria com uma apendicectomia tecnicamente fácil, pode evoluir para um quadro de peritonite grave com consequências, às vezes, fatais.

Automedicação x medicamentos fitoterápicos:
Os fitoterápicos são medicamentos elaborados a partir de plantas medicinais. Mesmo que a maioria dos medicamentos fitoterápicos sejam vendidos sem prescrição médica, eles são produtos tão perigosos quanto os medicamentos tradicionais.
É um equívoco acreditar que as plantas medicinais não prejudicam a saúde. São os componentes fitoquímicos das plantas que garantem sua ação no organismo, estes componentes geralmente possuem efeitos terapêuticos e/ou colaterais. Assim como os outros medicamentos, os fitoterápicos quando utilizados de forma incorreta podem proporcionar graves problemas de saúde.
Exemplo: o boldo é, costumeiramente, utilizado para males relacionados ao sistema digestivo e ao fígado, mas, quando deixado em infusão por muito tempo (extração demasiada dos componentes fito químicos) as reações colaterais incluem taquicardia, vômito, diarreia, alucinações, convulsões e problemas renais.

Estatísticas da OMS (Organização Mundial da Saúde):
Em todo o mundo, mais de 50% de todos os medicamentos receitados são dispensáveis ou são vendidos de forma inadequada. Cerca de 1/3 da população mundial tem carência no acesso a medicamentos essenciais. Em todo mundo, 50% dos pacientes tomam medicamentos de forma incorreta.
Cuidados especiais devem ser tomados por gestantes, crianças e idosos. Na gestante, os medicamentos podem afetar a saúde do bebê (toxicidade fetal com lesões variadas e algumas até irreversíveis), nas crianças, por sua vez, o sistema de metabolismo enzimático ainda não está completamente formado, enquanto que nos idosos o metabolismo é mais lento.
Hoje em dia, as pessoas utilizam medicamentos para qualquer tipo de sintoma, ou seja, a procura pelo bem-estar acaba relacionada diretamente ao consumo de medicamentos e não na prevenção através de hábitos de vida saudáveis.
É de extrema importância que o paciente faça o tratamento da maneira correta, respeitando horário e dosagens estabelecidos. E, quando estiver no consultório médico, não se esqueça de contar todos os sintomas que estiver apresentando. Isso ajudará o especialista a diagnosticar de maneira mais eficiente a doença da qual estiver sofrendo.

DESCARTE RACIONAL MEDICAMENTOS

Os medicamentos que você adquire para aliviar algum sintoma ou, até mesmo, para salvar vidas, podem ser muito prejudiciais tanto para o meio ambiente quanto para outras pessoas se não forem descartados de forma adequada.
Atualmente, está sendo discutido no âmbito da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) o funcionamento do sistema de descarte de medicamentos no país. O objetivo é que a população tenha alternativa apropriada para o descarte seguro e ambientalmente correto das sobras dos medicamentos por falta de uso ou com prazo de validade vencido.
 A maioria dos medicamentos descartados vem das sobras de remédios da nossa “farmácia caseira”, um hábito comum do brasileiro, geralmente resultante da automedicação.
O descarte incorreto de medicamentos pode ocasionar a contaminação do meio ambiente, que ocorre pelo descarte inadequado em lixeiras comuns e em pias e vasos sanitários, também acontece pela parcela excretada na urina e fezes de produtos que tomamos. Estas substâncias percorrem todo o caminho até uma estação de tratamento de esgoto onde também sofre metabolização, mas, muitos não são totalmente degradados e contaminam o solo e os lençóis freáticos e interferem no metabolismo e comportamento de organismos aquáticos.
Como descartar medicamentos corretamente:
A RDC nº 44, de 17 de Agosto de 2009, em seu artigo 93, declara que fica permitido às farmácias e drogarias participarem de programas de coleta de medicamentos a serem descartados pela comunidade, com vistas a preservar a saúde pública e a qualidade do meio ambiente. Ou seja, existem iniciativas voluntárias que permitem o descarte de forma segura de medicamentos vencidos ou sobras de tratamentos, bem como, de suas embalagens e de objetos perfuro cortantes usados para ministrá-los.
A primeira medida é informar-se nas farmácias de sua região se elas participam de algum programa de descarte de sobras domésticas de medicamentos, embalagens e de objetos perfuro cortantes. Caso não exista um ponto de descarte em sua cidade ou alguma iniciativa similar na região, o mais aconselhável é solicitar informações nas Unidades Básicas de Saúde.


Matéria desenvolvida por: Graziani Tonin


Fontes: Resolução nº 586 de 29 de Agosto de 2013; RDC nº 44, de 17 de Agosto de 2009; Ministério da Saúde;
Organização Mundial da Saúde; ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária;
SINITOX (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas);  Hudson W. O. e Sousa; Jennyff L. Silva; Marcelino S. Neto:
A Importância do Profissional Farmacêutico no Combate a Automedicação no Brasil (Revista Eletrônica de Farmácia, Vol. V (1), 67-72, 2008);
 Bortoletto, Maria Élide e Bochner, Rosany: Impacto dos Medicamentos nas Intoxicações Humanas no Brasil (Cad. Saúde Pública,
RJ 15 (4)859869-out/dez. l999); - Revista Associação Medica Brasileira, vol.47 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2001;